Uma cidade amiga do idoso depende do engajamento de todos

Fonte: Folha de São Paulo

Ambiente ‘age-friendly’ dá a toda população oportunidade de viver e envelhecer melhor

Ina Voelcker

Gerontóloga e membro do conselho do Centro Internacional de Longevidade (ILC) no Brasil

A ONU acaba de anunciar 2021-2030 como a década do envelhecimento saudável. Entre as ações centrais da organização, estão políticas e espaços “amigos do idoso”. Se assim forem, serão amigos de todas as idades.

Moradores idosos no calçadão da praia de Copacabana, em 2001, bairro que com alta concentração de idosos do Rio de Janeiro
Moradores no calçadão da praia de Copacabana, em 2001, bairro com alta concentração de idosos do Rio de Janeiro – Roberto Price – 8.fev.2001/Folhapress

Os mais jovens talvez se perguntem como uma cidade “amiga dos idosos” poderia ser também adequada para eles, seus amigos ou filhos. Com frequência, seguem associando envelhecimento apenas a fragilidade, desamparo e vulnerabilidade. Consequentemente, não refletem sobre a própria velhice e não se preparam para ela ao não reconhecer que escolhas atuais influenciam a vida futura.

Os pilares do envelhecimento ativo —saúde, conhecimento, direito à participação na sociedade e segurança— impactam centralmente o nosso envelhecer. Impõe-se, portanto, uma perspectiva de curso de vida, já que a velhice depende de todas as etapas que a precedem.

Os contextos físico, social e econômico influenciam a maneira como envelhecemos desde o início da vida. Um ambiente “age-friendly” oferece oportunidades para melhor crescer, viver, trabalhar, descansar e envelhecer.

Esse modelo de cidades “amigas dos idosos” foi criado por Alexandre Kalache (curador desta série de textos) enquanto diretor de Envelhecimento e Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS) e testado em Copacabana com duas premissas centrais: o protagonismo do idoso (nada para nós sem nós) e rigor científico.

Em 2007, a OMS lançou o Guia das Cidades Amigas dos Idosos, desde então adotado por milhares de cidades mundo afora, transformando-se em um movimento global.

Não há uma receita mágica. Cada cidade tem suas peculiaridades, daí a importância de ouvir e envolver os idosos localmente. As organizações da sociedade civil, junto com as acadêmicas, têm papel crucial neste processo “de baixo para cima”. Mas cabe às autoridades públicas responderem efetivamente com políticas e ações “de cima para baixo”.

Infelizmente, são poucas as cidades no Brasil que adotaram o guia da OMS com o rigor exigido.

Destacam-se Veranópolis (RS), Jaguariúna (SP) e São José do Rio Preto (SP). Houve um plano ambicioso de transformar São Paulo no primeiro estado “amigo dos idosos”, mas poucos municípios alcançaram os objetivos propostos.

Há três riscos inerentes ao desenvolvimento desses projetos. Em primeiro lugar, sustentabilidade. Administrações recém-eleitas tendem a desconsiderar políticas precedentes, pondo tudo a perder.

Em segundo, o populismo. Alguns projetos são concebidos puramente por razões eleitoreiras, como o programa Brasil Amigo do Idoso, lançado pelo ministro Osmar Terra na gestão Michel Temer. Endossado por mais de mil municípios, o projeto só serviu concretamente para a reeleição de Terra para a Câmara dos Deputados, em 2018.

Finalmente, a questão de apropriação e empoderamento, o protagonismo central dos idosos. Para tal, é essencial o papel de organizações da sociedade civil genuínas, sobretudo por meio de conselhos de idosos que, de fato, defendem e lutam por seus direitos.

Uma cidade “amiga do idoso” depende do engajamento de todos: poder público, sociedade civil organizada, setor privado, academia, mídia e cada indivíduo. Todos envelhecem e se beneficiam de um ambiente amigo do idoso —hoje e amanhã.