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“Escravidão”: uma análise acadêmica da obra de Laurentino Gomes

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O tráfico negreiro forjou o Brasil no século 18, “quando tudo dependia do sangue e do suor africano, base e motor da economia colonial”. “Nada se fazia sem escravos”, diz um trecho de “Escravidão Volume 2 – Da Corrida do Ouro em Minas Gerais até a Chegada da Corte de Dom João ao Brasil”, de Laurentino Gomes.

A convite da Folha, cinco acadêmicos —historiadores, sociólogos, cientistas políticos e sociais— leram e analisaram o livro que aborda um dos períodos mais importantes da história do país. Segundo eles, a publicação extrapola estereótipos e deixa evidente que a contribuição africana foi decisiva na constituição da sociedade brasileira.

“O livro é um trabalho jornalístico que reúne descobertas feitas por historiadores que reconhecem e destacam o conhecimento e a tecnologia que os negros trouxeram da África, detalha as várias funções que os escravizados exerceram no Brasil e valoriza a sabedoria africana”, afirma Ivair Augusto Alves dos Santos, doutor em sociologia pela Universidade de Brasília, a UnB, e mestre em ciências políticas pela Universidade Estadual de Campinas, em São Paulo, a Unicamp.

“O autor deixa clara a presença do componente africano em toda a identidade brasileira”, observa Pio Penna, doutor em história das relações internacionais e diretor do Instituto de Relações Internacionais, o Irel, da UnB.

No Brasil colonial, os escravizados não eram apenas commodities cujo valor dependia só do vigor físico. “Os navios negreiros transportavam conhecimentos e habilidades tecnológicas desenvolvidas na África que seriam cruciais na ocupação europeia do Novo Mundo”, diz outro trecho de “Escravidão”.

Os povos africanos tinham domínio em metalurgia, rizicultura, mineração, criação de gado, coleta de pérolas marinhas, tecelagem, escultura, carpintaria, construção de casas, edifícios, igrejas, canais, represas e estradas, entre outras atividades.

Nesse sentido, os escravizados na Costa da Mina, pela expertise, foram essenciais para o êxito do ciclo da mineração no Brasil. Tanto que em meados do século 18, 60% dos africanos desembarcados em Salvador eram registrados como mina.

Outra grande contribuição do livro segundo os acadêmicos ouvidos pela Folha está na desmistificação da ideia de que os escravizados não formavam famílias. “Eles não só constituíam família, como as famílias eram uma forma de resistência”, observa Andréa Pires Rocha, pós-doutora em serviço social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e docente da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná.

O protagonismo das mulheres negras na sociedade colonial também é destacado. Para além das obrigações como cativas e da visão hipersexualizada, elas são retratadas como chefes de família e comerciantes, vendedoras de frutas e quitutes nas ruas.

“Fica evidente que a dupla jornada foi uma imposição histórica e não uma conquista feminista para as mulheres negras”, diz Pires Rocha. “Elas aparecem como donas de si, fazem dinheiro com trabalho informal, sustentam a família e se alforriam em maior número”, complementa Amanda Aparecida Silva, doutora em ciências pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.

Os efeitos da brutalidade do sistema escravocrata sobre a saúde física e mental da população negra também são retratados com clareza. O livro aponta como a chamada “onda escravista” mudou as condições de vida dos escravizados.

Quem sobrevivia à travessia do Atlântico tinha de superar a perda da própria identidade. Em terra firme, vivendo sob maus tratos e em condições muito precárias, havia preocupação com a produtividade do cativo, o que não implicava em cuidados com a saúde ou a segurança no trabalho.

Recomendações médicas eram deliberadamente ignoradas por questões monetárias, deixando evidente que a morte poderia ser mais lucrativa do que investir em melhorias sanitárias.

Na colônia, a expectativa de vida dos escravizados era de apenas 12 anos. “O medo do chicote, o temor de ser execrado em praça pública e os problemas pulmonares eram uma constante”, comenta Alves dos Santos, da UnB.

Havia ainda os problemas mentais. “O banzo nada mais era do que uma depressão profunda”, observa José Francisco dos Santos, doutor em história pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e professor adjunto da Universidade Federal do Oeste da Bahia.

Pio Penna, da UnB, ressalta a relevância de analisar os fatos narrados no livro sob a ótica temporal ao comentar o fato de muitos africanos terem participado do esquema escravocrata no Brasil, mantendo cativos depois de conquistarem a própria liberdade. “A escravidão é um ato injustificável, mas as pessoas têm de entender que é difícil julgar o passado pela lógica do presente”, observa.

“É preciso contextualizar o discurso”, complementa Silva. “O regime escravista era extremamente complexo, uma estrutura cheia de facetas envolvendo a luta pela sobrevivência, algo maior do que uma questão de ser bom ou mau.”

O sagrado também é retratado sob um novo viés, uma forma de autoafirmação. Nesse sentido, arquitetos africanos conseguiram incrustar traços de sua cultura, como figuras negras e contas de búzios, na construção de igrejas. “A religião não era libertadora e sim mais um elemento de submissão e dominação permanente”, analisa Alves dos Santos.

Segundo Santos, o pesquisador da Universidade Federal do Oeste da Bahia, muito do que hoje é posto como religião de matriz africana é, na verdade, uma religião afro-brasileira. “Houve uma confluência de elementos que resultaram em novas religiões que, infelizmente, ainda são tratadas de forma inadequada e desrespeitosa.”

O livro aponta uma série de questões surgidas no Brasil colonial —quando o negro deixa de ser sujeito para virar mercadoria —e ainda não superadas.

Coisas como preconceito, discriminação racial, desperdício de recursos públicos, falta de investimento, corrupção, descaso com a educação e com a saúde dos mais vulneráveis. São razões do pretérito que fazem de “Escravidão – Volume 2” leitura essencial para entender o Brasil do presente.

Publicado em 16 de julho de 2021 em Ilustrada – Folha de São Paulo. 

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