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Saúde mental pode afetar os dentes; veja problemas comuns e como prevenir

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A saúde mental envolve o bem-estar emocional e psicológico. Não é novidade que não estar bem emocionalmente afeta a vida diária e os relacionamentos. Mas a situação pode ir além e começar a atrapalhar a saúde de forma geral e trazer doenças como os problemas bucais. Surgem assim, cáries, bruxismo e até perda de dentes.

Para Danila Nunes, cirurgiã-dentista do Hospital Universitário da UFMA (Universidade Federal do Maranhão), a saúde mental pode influenciar o surgimento de doenças bucais e vice-versa. “Já atendi diversos pacientes com sintomas de estresse que apresentavam problemas como desgastes dentários. E há também alterações mentais que causam danos psicomotores, que dificultam a manutenção da saúde bucal”, explica.

Uma revisão de 25 estudos realizada com mais de 5.000 pacientes psiquiátricos mostrou que eles tinham 2,8 vezes mais risco de perder os dentes. Além disso, apresentavam mais cáries e obturações quando comparados com pessoas sem problemas mentais.

Isso ocorre por diversos fatores, principalmente por hábitos alimentares inadequados e falta de higiene bucal. Muitos buscam compensações ou desenvolvem compulsão por alimentos ricos em açúcares como chocolates, que geram uma sensação de satisfação temporária.

Mas, em excesso, e sem a higienização correta após o consumo, o comportamento aumenta os riscos de cáries, ou seja, uma deterioração da estrutura dentária por causa da presença de bactérias na boca.

Além disso, alguns transtornos mentais causam a diminuição do autocuidado. Dessa forma, a pessoa pode deixar de lado a higiene oral —não escovam os dentes ou usam o fio dental após as refeições. Em longo prazo, a situação costuma piorar e levar a perdas dentárias.

A seguir, veja como a saúde bucal é afetada por distúrbios psicológicos e desequilíbrio emocional.

O sentimento de faz parte do dia a dia e é normal ficar ansioso quando ocorre alguma mudança, por exemplo. Mas algumas pessoas apresentam uma ansiedade excessiva que atrapalha a rotina e traz diversos problemas de saúde.

É comum que os ansiosos descuidem da higiene bucal, escovem os dentes muito rapidamente e de forma inadequada. Essas atitudes comprometem a saúde bucal, já que isso aumenta as cáries e as gengivites (inflamações na gengiva).

Sabe-se que a ansiedade também gera uma série de alterações metabólicas que podem acionar o sistema nervoso central e deixá-lo em estado de alerta, predispondo ao desenvolvimento de várias doenças bucais. É o caso do bruxismo, que é uma condição caracterizada pelo ranger ou pressionar os dentes e é mais frequente durante o sono.

Há ainda pessoas com TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo) que escovam os dentes com muita frequência e força. Isso acaba corroendo o esmalte do dente e machucando a gengiva.

Viver estressado faz muito mal à saúde e ainda compromete a saúde bucal. O estresse em excesso causa diminuição da saliva e reduz a resistência às bactérias. Tudo isso colabora para que aumente o número de micro-organismos na boca, causando mais cáries.

O estresse também provoca apertamento dentário, o ranger dos dentes ou bruxismo de vigília, ou seja, quando a pessoa está acordada. Ocorre uma contração em excesso dos músculos da face, que juntamente com a falta de saliva, aumentam os problemas bucais.

Além disso, essa tensão extrema pode levar a uma disfunção temporomandibular, um problema que afeta a articulação da mandíbula e do crânio. Essa condição causa dores locais, de cabeça e dificuldade para abrir e fechar a boca.

Outra situação que ocorre frequentemente em quem está muito estressado é o surgimento de aftas, que são pequenas erupções na parte interna da boca. Nesses casos, o estresse libera o hormônio cortisol em excesso, o que aumenta as inflamações do corpo.

“É muito comum casos de pacientes com bruxismo, apertamento dentário e distúrbios de mandíbula associados a episódios de estresse prolongado. Muitos reclamam de dores de cabeça e ouvido. Além disso, o estresse diminui a imunidade. Portanto, altera a mucosa bucal e causa problemas como aftas e herpes”, completa Rinaldi Campos, cirurgião-dentista da UFMA.

Quem está com , muitas vezes, não tem disposição para se cuidar. E, em alguns casos, não tem vontade de escovar os dentes e procurar atendimento odontológico de rotina. Isso porque apresenta um desânimo enorme, tristeza e a perda de prazer.

“É comum que quem tem depressão não consiga comparecer ao dentista para realizar uma consulta de rotina. A higiene precária ou inexistente agrava as doenças periodontais. O grande problema é o paciente identificar que precisa da ajuda de um cirurgião-dentista e buscar orientação”, destaca Adriana Zink, presidente da Comissão de Odontologia para Pessoas com Necessidades Especiais do CROSP (Conselho Regional do Estado de São Paulo).

Por conta disso, é comum que essas pessoas apresentem problemas bucais com mais frequência, como as cáries. Se o problema não for tratado, surgem complicações como infecções e inflamações na gengiva e até a perda de dentes.

“O uso prolongado de medicações psicotrópicas tem como sintoma colateral a boca seca. Além disso, quem está deprimido está mais propenso a usar cigarro e até crack, o que prejudica a saúde bucal. As cáries, gengivites e outros problemas dentais podem ser mais presentes em pessoas que apresentam algum sofrimento mental”, diz Christiane Ribeiro, psiquiatra e professora da Faculdade de Ciências Médicas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

Algumas pessoas sofrem com distúrbios alimentares graves que afetam diretamente a saúde. Entre os mais conhecidos estão a anorexia (diminuição da ingestão de alimentos), a bulimia (consumo exagerado de alimentos com vômitos provocados) e a compulsão alimentar (consumo em excesso e em pouco tempo).

Esses comportamentos persistentes provocam alterações no organismo, aumentando o risco das doenças bucais. Por isso, quem tem algum tipo de transtorno alimentar costuma ter problemas nos dentes —corrosão do esmalte, cáries e perda dentária.

No caso da bulimia, por exemplo, o hábito contínuo de comer alimentos calóricos e na sequência provocar o vômito altera o Ph salivar. “Alguns pacientes escovam os dentes imediatamente após o vômito, o que agrava mais ainda o desgaste dos dentes, já que esfrega o conteúdo ácido no esmalte. O tratamento para bulimia é longo e as visitas ao dentista devem ser mensais para não perder o controle”, explica Zink.

O que pode ser feito?
Quem apresenta problemas como depressão, ansiedade, estresse em excesso e transtornos alimentares precisa buscar ajuda profissional o quanto antes. A terapia comportamental costuma ser bastante efetiva para lidar com os sentimentos negativos e mal-estar emocional.

Em alguns casos, é importante fazer um acompanhamento com um psiquiatra e começar a tomar medicamentos para reduzir os sintomas e melhorar a qualidade de vida.

“Com acompanhamento psiquiátrico e psicológico, a pessoa consegue ter uma saúde mental mais estável. Começa a se cuidar mais e não deixa de lado os cuidados pessoais. Além de permitir viver de uma forma harmoniosa, sem causar prejuízos para a sua saúde”, afirma Ribeiro.

Já o cirurgião-dentista precisa oferecer um atendimento mais humanizado para conseguir ajudar essas pessoas. Por isso, deve acolher o paciente que tenha algum tipo de transtorno mental, avaliar seus sintomas e encaminhar para outros especialistas de saúde.

“O cirurgião-dentista deve estar atento ao contexto multidisciplinar das lesões e doenças bucais e investigar atentamente a causa dos problemas. Caso seja necessário, o acompanhamento psicológico e/ou psiquiátrico é fundamental e se faz necessário trabalhar em conjunto para garantir a saúde geral do indivíduo”, finaliza Kamila Godoy, cirurgiã-dentista e pesquisadora da Faculdade de Odontologia da USP (Universidade de São Paulo).

Publicado em VivaBem/Uol em 02 de junho de 2021. Reprodução

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